Resenha Literária: Você Já É Feminista!, organização de Nana Queiroz

Editora Pólen | Revista AZMina para mulheres de A a Z

“Feminismo é, na verdade, uma ideia bem simples: a de que homens e mulheres têm dignidade igual e merecem direitos equivalentes, e que você está disposta a se transformar e lutar por isso em sua vida pessoal e política.”

O livro “Você Já É Feminista! – Abra este livro e descubra o porquê” foi organizado por Nana Queiroz e escrito por ela e mais quinze mulheres reais e diferentes (não esquecendo das ilustrações que também foram feitas por uma mulher, Larissa Ribeiro). Há de Amara Moira, travesti pan puta, a Luciana Veloso, auditora-fiscal do Ministério do Trabalho, mulheres que ocupam posições muito diferentes na sociedade, mas que, como todas as outras autoras, têm algo em comum: muito a nos ensinar.

O título do livro é certeiro no que afirma. Muitas mulheres têm aversão ao feminismo porque compraram a ideia deturpada que se vende dele. Então, esclareça-se desde logo que feminismo não é o contrário de machismo e não pretende ser, pois machismo é opressão, enquanto feminismo é liberdade. Logo, a partir do momento que você, mulher, acredita que é tão digna quanto um homem e merece os mesmos direitos que ele, como pode ser contrária a uma luta que tem como fundamento exatamente essa ideia? Já se questionou sobre isso?

“Ou seja: ser mulher e não ser feminista seria um contrassenso sem tamanho. Seria como ser um cachorro e não ser a favor do movimento pelos direitos dos animais. Ou ser um escravo e se opor ao abolicionismo.”

Dividido em quatro partes: “Bê-a-Bá do Feminismo”, “Identidades”, “O direito ao próprio corpo” e “Por uma cultura de equidade”; o livro serve como um grande convite a se questionar, questionar a sociedade em que vivemos e conhecer o feminismo. Quando digo “conhecer o feminismo”, em nenhum momento quero dizer que o livro se encerra em si mesmo, muito pelo contrário, leve a sério quando digo que se trata de um convite. A obra introduz temáticas e desperta o interesse por um conhecimento maior, e essa é realmente a sua intenção, confirmando-se com as sugestões de leitura apresentadas no próprio livro.

Dezesseis clássicos do feminismo para ler e reler
(A maioria deles está disponível gratuitamente na web!)
Mary Wollstonecraft – Reinvindicação dos Direitos da Mulher (1792)
Nísia Floresta – Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens (1832)
Sojouner Truth – Discurso “Não sou mulher?” (1851)
John Stuart Mill – A Sujeição das Mulheres (1869)
Friedrich Engels – A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884)
Virgínia Woolf – Um teto todo seu (1929)
Simone de Beauvoir – O Segundo Sexo (1949)
Betty Friedan – A mística da mulher (1963)
Germaine Greer – A mulher eunuco (1971)
Heleieth Saffioti – A mulher na sociedade de classe: mito e realidade (1976)
Michel Foucault – História da Sexualidade (1976)
Naomi Wolf – O Mito da Beleza (1990)
Judith Butler – Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade (1990)
Anne Fausto-Sterling – Os cinco sexos: porque macho e fêmea não são o bastante (2000)
Bell Hooks – Feminism is for everybody: passionate politics (2000)
Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas (2014)

Na Parte 1, Bê-a-Bá do Feminismo, conhecemos textos de Lola Aronovich, Nana Queiroz e Letícia Bahia, nos explicando o feminismo a partir de uma apresentação histórica, desde a exportação do patriarcado pelos europeus para o resto do mundo, até o surgimento e evolução das correntes feministas. Inclusive, há um teste muito interessante no livro, para que você descubra em qual corrente feminista a maioria das suas ideias se encaixam, e eu desafio qualquer mulher a fazer esse teste e não se encaixar em pelo menos uma das correntes. Acredite, você é feminista, senão interseccional, socialista ou radical, tenho certeza que será liberal ou maternalista. Cabe todo mundo, sabe por quê? Porque “todas as correntes têm coisas válidas e se complementam”.

Na Parte 2, que fala sobre Identidades, os textos de Jaqueline de Jesus, Luisa Marilac e Tamy Rodrigues, complementando-se, nos mostram as diferenças entre identidade de gênero (Lembra quando eu disse que o livro é escrito por mulheres e elenquei uma travesti como autora? Se você se chocou com essa ideia, é aqui que você vai compreendê-la) e orientação sexual; Djamila Ribeiro apresenta o feminismo negro; e Flávia Biroli fala sobre a divisão sexual do trabalho. Nessa parte, é possível entender a importância do feminismo interseccional, corrente que compreende que o “ser mulher” não é uma categoria única, apresentando nuances diferentes a depender da história de cada mulher, variando de acordo com fatores como orientação sexual, cor da pele, condição social e tantos outros.

A Parte 3, por sua vez, fala do direito ao próprio corpo, passando pelos assuntos prazer, pornografia, prostituição, estupro, gravidez/parto e aborto. Nessa parte, Luiza Furquin nos mostra que a nossa própria ideia de prazer é corrompida pelo machismo; Carolina Oms e Nana Queiroz levantam o questionamento sobre a pornografia; Amara Moira fala sobre prostituição e o direito de ser prostituta; Letícia Bahia fala sobre a cultura do estupro e onde ela começa; Carolina Vicentin fala sobre o direito ao parto humanizado; e Helena Bertho traz o tema aborto à tona.

“em uma sociedade construída sobre princípios laicos, crenças pessoais e religiosas de um não devem cercear a liberdade de outras – muito menos levá-las à morte.”

Por fim, a Parte 4 vem falar sobre a cultura de equidade, fundamental/essencial/primordial para o combate ao machismo, e como ela pode ser perpetuada. Entendemos que a revolução começa dentro da nossa própria casa, desde a nossa infância, passando pelas nossas roupas, pelo nosso trabalho, pela criação dos nossos filhos e pela divisão das responsabilidades domésticas, refletindo enfim na sociedade e na nossa legislação. As autoras dessa parte são Nana Queiroz, Lívia Magalhães, Luciana Veloso, Carolina Oms, Lúcia Ellen Almeida e Carolina Vicentin.

Como visto, o livro, de apenas 174 páginas, apresenta muitos temas, sendo muito claro, desde o início, que não tem qualquer pretensão de esgotar os assuntos, mas de nos instigar a leitora (ou mesmo o leitor) a querer saber mais, e ele cumpre esse papel de forma magistral. Vale muito, mas muito, muito, muito a leitura. Se você se entende feminista, se você não se entende feminista, se você quer começar a entender o feminismo, se você quer apenas tirar uma dúvida, qualquer que seja a razão, leia este livro. Ele é pequeno, mas rico e precioso, então, não deixe passar essa dica e não diga que eu não avisei.

1 Comentário para "Resenha Literária: Você Já É Feminista!, organização de Nana Queiroz"

  1. Aaaaaaaaaaa
    Eu quero muito ler esse livro,muito,muito mesmo.
    Adorei a resenha,Thai!

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