Exposição Mãos do Bruno

Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes — tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte vê-se, porque dura.

(Fernando Pessoa)

A exposição “Mãos do Bruno”, formada por obras em cerâmica artística produzidas por jovens do bairro Bruno Bacelar de Vitória da Conquista, foi inaugurada no dia 14 julho e se encerra na próxima sexta-feira, dia 04 de agosto de 2017.

Fruto do projeto homônimo idealizado pelo Mestre Popular em Arte em Cerâmica, Gilvandro Oliveira, e executado com apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia, a exposição marca a culminância de um trabalho desenvolvido ao longo de 07 (sete) meses com esses jovens residentes da periferia urbana de Vitória da Conquista – BA, em prol da prática da cidadania através do conhecimento da sua própria história e da transformação desse sentimento em obras artísticas.

A partir de cursos gratuitos de pesquisa e produção em cerâmica artística, Gilvandro desenvolveu o projeto com foco no resgate da memória da história local por meio da pesquisa oral, no estudo da situação contemporânea do jovem e seus desafios e, por fim, no desenvolvimento do seu poder criativo expresso na argila.

A (es)cultura sacra remonta à infância de Gilvandro, que desde criança confeccionava seus próprios brinquedos na argila, chamando a atenção do pároco local. Anos depois, já no Seminário Nossa Senhora de Fátima, começou a desenvolver seu trabalho, como autodidata, utilizando os santos como modelo e inspiração.

“Às vezes eu levava um bolinho de barro, quando eu amava uma santa ali, uma peça que era exclusiva dali, e eu não tinha condição de ter uma; eu pegava ela, olhava e ia copiando; embalava e levava pra casa.”

(Gilvandro Oliveira)

Essa cultura também faz parte do cotidiano dos jovens aprendizes do Bruno Bacelar, que a imprimiram em suas obras com liberdade e de forma natural, sem qualquer tipo de imposição religiosa.

Natural da comunidade remanescente de quilombo Ribeirão dos Paneleiros, que sofreu grande influência dos índios que já dominavam a região quando do surgimento da mesma, e morador do bairro Bruno Bacelar, Gilvandro Oliveira traz na história da sua ancestralidade e na sua filosofia de vida a influência direta indígena. Os fragmentos dessa cultura, marginalizada pelo processo de colonização, se tornou fonte na construção do seu processo criativo e também está presente nas obras confeccionadas por seus aprendizes.

O sagrado dos santos une-se ao sagrado dos indígenas, dos quilombolas e dos ribeirinhos, e o que, em um primeiro momento, é recebido com estranheza, transforma-se na compreensão de que as diversas maneiras de vivenciar a fé são íntegras e devem ser respeitadas. 

“Mãos do Bruno” vai além de uma exposição de obras artísticas; antes disso, constitui a valorização da expressão cultural de jovens que perpetuam história e tradição através de suas próprias mãos. É um espaço de acolhimento e exercício da cidadania, além de oportunizar a inserção desses novos artistas no mercado de trabalho por meio da arte.

Então, não percam a oportunidade de apreciar essa exposição! Aproveitem essa semana e corram para a Casa Memorial Régis Pacheco. O espaço fica aberto para visitação das 9h às 19h! 😉

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