Dica de Série: Cara Gente Branca

Cara Gente Branca (Dear White People) é a nova série da Netflix que estreou no dia 28 de abril  e que já começou gerando polêmica antes mesmo de ser lançada. Tão logo foi anunciada a sua data de estreia e divulgado o primeiro teaser, já havia muita gente prometendo boicote devido ao “racismo inverso” que supostamente a série viria propor. Mas é claro que eles não ficaram só na ameaça, né? Muita gente realmente boicotou a série, convidou outras pessoas a também boicotarem e até mesmo cancelou a própria conta na Netflix. E o que isso tudo significa senão que a série é realmente necessária?

“Dear White People é um tapa com luva de pelica do início ao fim. A série trata, com linguagem leve e por vezes divertida, das mais diversas formas de racismo que enfrentamos. As situações pelas quais os protagonistas passam são reais, eu repito, REAIS. Não há uma gota sequer de exagero. Definitivamente, não é uma obra de ficção. Não é necessário fazer comentários a respeito das qualidades técnicas do show, pois ele é impecável. Isso vai das atuações apresentadas até as escolhas de trilha sonora. Pode ser que, para algumas pessoas, a série seja difícil de engolir. Muitos podem acabar se reconhecendo em certas atitudes tomadas por personagens brancos. No entanto, eu, como mulher negra, afirmo: se me pedissem para descrever Dear White People com uma palavra, eu diria ‘necessária’.” Isabella Faião, 24 anos, Assistente de Business Center, Rio de Janeiro – RJ.

Primeiro de tudo, é preciso dizer que “racismo inverso” não existe e que, se você realmente acredita nisso, você é uma das razões para que a série exista. Segundo, a série pode e é feita para incomodar, e é tão boa, mas tão boa, que com certeza não poderia passar sem virar uma Dica de Série aqui no blog. Mas, afinal, o que é Dear White People e por que você não pode deixar de vê-la?

Dear White People

A série, que foi baseada no filme de mesmo nome e sensação do Festival Sundance de 2014, propõe-se a ser muita mais que apenas uma série, mas uma verdadeira aula do que é o racismo. Dear White People toca em diversos aspectos do racismo além do preconceito racial em si, como a apropriação cultural, o colorismo e as relações interraciais, e também trata sobre sexualidade. Temas importantes que vão sendo vivenciados pelos (incríveis e muito bem construídos) personagens da trama.

A história gira em torno de um grupo de alunos negros vivendo em meio a uma universidade em que a maioria dos alunos são brancos. O reitor da universidade é negro, mas age em função dos interesses dos investidores da instituição, e se blinda para não enxergar, ignorar e colocar panos quentes sobre o racismo que existe ali, pressionando seu filho Troy para que faça o mesmo. Então, somos apresentados à história quando é marcada uma festa blackface (ridicularização e apropriação cultural) e, ao invés de ser repudiada por todos, ganha grande adesão dos alunos brancos. Mas já adianto que isso é só a ponta do iceberg dos problemas.

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No início, acreditei que a história toda seria contada do ponto de vista da protagonista, Samantha White (Logan Browning), mas achei muito mais interessante quando vi os pontos de vista se alterando ao longo dos episódios, cada um focado num personagem diferente. O que nos aproxima mais dos personagens e faz com que eles se tornem queridos, cada um à sua maneira. São diferentes pessoas, com diferentes histórias, sendo que cada uma delas aprendeu a lidar com o racismo da sua própria maneira a partir das suas experiências.

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Samantha e Reggie (Marque Richardson) são militantes, inclusive, Samantha tem um programa de rádio chamado Cara Gente Branca, no qual esmiuça o racismo para que as pessoas brancas, quem sabe, o entendam de uma vez por todas. Já Coco (Antoinette Robertson) e Troy (Brandon P. Bell) buscam trabalhar junto com o sistema, sem bater de frente com ele, em posturas mais “passivas”. Enquanto que Lionel (DeRon Horton) ainda parece estar tentando descobrir, tanto a si mesmo, quanto como deve realmente agir, mas desde sempre tem sede de fazer a diferença enquanto jornalista. E então temos Gabe (John Patrick Amedori), o personagem branco que tenta acertar, tenta se importar, mas que nunca vai saber efetivamente pelo que uma pessoa negra passa, e que está longe de ser perfeita ou mesmo o herói.

“Cara Gente Branca é uma série necessária! Através de suas sátiras, ela se propõe a criticar o racismo estrutural em uma sociedade que se diz pós-racial (ou seja, que acredita que o racismo hoje é brando ou inexistente). A série fala sobre a vivência de pessoas negras demonstrando suas singularidades e complexidade, fugindo do estereótipo racista. Por outro lado, ela opera um movimento contrário em relação aos personagens brancos. Lá eles são, em sua maioria, tão parecidos que mal podemos distingui-los. Dói ser sub-representado, né? As críticas em torno do império da branquitude se centram especialmente nas violências cognitivas – nos pequenos comentários, os olhares desconfiados, as suposições e até mesmo as agressões verbais – para nos mostrar que o racismo se sedimenta por meio das sutilezas para, por fim, legitimar os atos de violência extrema (okay, sem spoilers). A espinha dorsal da série é a crítica. Tem crítica para todo mundo, inclusive para o próprio movimento – e pelo o que eu tenho visto nas redes sociais, o movimento se nega a assumi-las ou enxerga-las. A série aborda a questão de diferenças de classes entre os negros e os excessos de um movimento que pode, por vezes, se demonstrar tóxico. Aliás, onde estão as pessoas negras gordas nessa série (rs)? Enfim, Cara Gente Branca é uma séria que merece nossa atenção. Caso aceite o desafio, prepare-se para rir e para chorar.” Murillo Nonato, 26 anos, Mestrando em Cultura e Sociedade, Salvador – BA.

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Por fim, só quero dizer que a série é realmente ótima, tanto pelo tema, quanto pela forma como ele é abordado, mas também por diversos outros aspectos, como os personagens muito bem construídos, os atores muito bem escalados, as tramas que realmente envolvem e também, porque não dizer, a fotografia que é belíssima. Então, deem uma chance para a série. Vai mesmo valer a pena. Se incomodar, que bom, era mesmo essa a intenção. Aguardo ansiosamente por uma segunda temporada.

Essa é a minha opinião e visão sobre a série, entretanto, apesar de eu nunca ter me considerado uma pessoa branca, também nunca me considerei negra, e sei que socialmente sou vista como branca, porque tenho privilégios de branca e também porque nunca sofri racismo. Por isso, mesclei a minha opinião sobre a série com as opiniões de outras duas pessoas, essas que experimentam os efeitos do racismo diariamente.

1 Comentário para "Dica de Série: Cara Gente Branca"

  1. Aaaaaaaaaa🙉
    Essa série é um tapa na cara da sociedade
    Tô com muita vontade de assistir

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